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Gabriel Chalita – Boas Raízes, Belas Raízes – escritor, professor, pensador, secretário de Educação em SP

Fonte – Carta do Líbano

Líbano. Terra dos meus avós. Terra tantas vezes arrasada pela ação errática dos homens. Guerras. Ódios fermentando uma massa amarga que não alimenta a ninguém. Líbano. Terra das minhas raízes. Terra de afetividade, acolhimento e alegria. Quanta garra, quanta coragem, quanta determinação tem essa gente. Meus avós paternos,  Milhem e Semiuii, casaram-se ainda muito jovens como era o costume da época, numa pequena e bela cidade do Líbano, Bekaa Kafra, no distrito Besharri, norte do Líbano. Eram como todos os apaixonados, cheios de sonhos, de utopias, de esperança. Partilhavam o desejo interior de conquistar mundos e descortinar horizontes. Meu pai, que não conheceu a cidade natal de seus pais, costumava dizer do orgulho de meu avô em contar, com olhos brilhosos, que viera da mais alta cidade do Líbano.

Levando, na bagagem, todas as lembranças de amor e dor de meu pai sobre sua terra, fui ao Líbano algumas vezes. Que emoção ao entrar na casa em que meus avós viveram. Em Bekaa Kafra. Meu pai, embora nunca estivera lá, descreveu-me a cidade em detalhes de beleza e muito amor. Contou-me das montanhas geladas da cidade que fica próxima do Cedro do Líbano. Orgulhou-se da terra que abrigou um santo. São Charbel viveu vinte e três anos como eremita, em adoração solitária ao Filho de Deus e à sua Mãe Santíssima, numa gruta próxima ao mosteiro de São Pedro e São Paulo. Morreu em 1898, mesmo ano em que meus avós nasceram. Da cidade de São Charbel, brota inspiração, brota bondade, brota Deus. E é desse lugar abençoado, que brotou a família de meu pai. O céu de Bekaa Kafra é céu de montanha. Mais puro. Mais limpo. Mais poético. Exatamente como eu a imaginava, criança, inebriado pelas palavras de meu pai. Mas meu pai não falava apenas das belezas, mas também de um cenário triste, desmoronado, testemunho de tantas guerras que cruelmente destruíram diversas vezes a cidade de onde eles e, muitos outros, vieram. E foi justamente essa ameaça da guerra maldita pendendo sobre suas cabeças que começou a fazer crescer, no coração de meus avós, o medo do futuro. Ambos queriam filhos, muitos filhos, mas não para crescer numa terra em que as sementes de dor e de medo pudessem florescer a qualquer tempo. Queriam, para seus filhos, uma vida feliz e livre, numa terra em que os vizinhos se amassem sem se importar com a religião professada pelo outro. E começaram a considerar a possibilidade de emigrar, a exemplo do que tinham feito, já, muitos outros membros da família Chalita. Um dia, meus avós decidiram partir. Partiram partidos, deixando amores em sua terra. Partiram em busca de vida, e vidas foram geradas no país em que nasci. O Brasil acolheu a eles e a tantos outros que chegaram entre lágrimas e sonhos. Corajosos. Trabalhadores. Amorosos. Não conheci meus avós. Minha avó morreu antes de eu nascer. Meu avô só teve tempo de celebrar minha chegada e partir. Agradeceu a Deus por mais um neto e, um ano depois, foi encontrar sua amada no reino dos céus. A partida de Beirute foi difícil. Sentimentos misturados. Dor e esperança. Olhos voltados para o mar, corações atados à terra.

Chegando ao Brasil, acabaram fazendo morada em Belo Horizonte. Meu pai foi o segundo filho, nasceu em dezembro de 1916: José Milhem. Dois anos depois, a família  mudou-se para a pequena cidade de Cachoeira Paulista. Foi na vizinha cidade de Taubaté, que meu pai avistou minha mãe, Anisse, e por ela se apaixonou. Um amor à primeira vista e para sempre. Meu pai fez da sua vida uma poesia. Singelas eram suas palavras. Seu sofrimento não o embruteceu. Fez-se homem amoroso e semeou em nós os valores que de seus pais recebeu. Fui ao Líbano, pela primeira vez, convidado para uma série de encontros educacionais e culturais. Conversas proveitosas sobre  um país que investe em educação, onde todas as crianças estudam em escola de tempo integral e, além do árabe, aprendem inglês e francês. O Líbano valoriza a educação como a grande oportunidade para serem quem decidirem ser. Lancei, nessa ocasião, meu primeiro livro em árabe. Uma editora traduziu o meu livro “Sócrates e Tomas More – correspondências imaginárias” para o árabe. Não leio árabe. Mas fiquei virando as páginas do livro como se lesse as páginas da minha história até chegar à minha raiz. Minha mãe leu a capa e chorou de emoção. Ela nasceu na Síria. Também partiu partida por ter que deixar a terra, por ter que ir em busca de um porto seguro. Os libaneses têm três características que me fascinam: a coragem, o trabalho e o amor. Amam sem economias, choram os seus ausentes e abraçam os que chegam. Servem do que têm para alimentar os seus. Trabalham como necessidade e opção. Gostam de empreender. E o fazem com coragem ímpar. Árvore que nega raiz tem vida frágil. Tenho orgulho das minhas raízes. Dos meus antepassados. Do colo que me alimentou de esperança e que me apresentou a vida como um presente de Deus e uma missão de não deixar as páginas em branco. Sou escritor, porque assim contribuo modestamente para o mundo em que acredito. Sou professor, porque creio no ser humano e em uma educação que amplie a sua visão fazendo com que enxergue que o amor é mais nobre que a perversidade, que a fraternidade é mais livre que o  egoísmo, que o cuidar é o exercício que nos realiza e que a saudade nos faz muito bem. Saudade dos meus avós que não conheci, saudade do meu pai que está em mim, saudade de um tempo que poderia ser melhor se as pessoas tivessem raízes. Raízes boas. Raízes belas. Belo Cedro do Líbano.

O MAIS JOVEM ACADÊMICO

Gabriel Chalita nasceu em Cachoeira Paulista, em 30 de abril de 1969. Desde criança ostentou  pendores para as letras e para a filosofia. É duplamente mestre e  duplamente doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Doutor em Filosofia do Direito e em Comunicação e Semiótica e mestre em Direito e Ciências Sociais. Os libaneses têm três características que me fascinam: a coragem, o trabalho e o amor. Sou escritor, porque assim contribuo modestamente para o mundo em que acredito. Docente profícuo em várias universidades, dentre as quais a PUC-SP e a Presbiteriana Mackenzie, concilia as aulas na graduação e na pós-graduação e é  responsável pela renovação dos quadros de jovens professores universitários, com ênfase na formação filosófica e humanista. Integra a União Brasileira de Escritores, é o mais jovem Acadêmico da APL, pertence à Academia Brasileira de Educação e, fenômeno editorial, já escreveu cerca de 50 livros, dentre os quais “A ética do Rei Menino”, “Os dez mandamentos da ética”, “Pedagogia do amor, educação: a solução está no afeto”, “Carta aberta para minha mãe”, “O livro dos amores”, “O livro dos sonhos”, “O livro do sol”, “O Poder”, “O Sol depois da chuva”, “Mulheres de água”. Todos com repetidas tiragens e reedições. Aos dezenove anos foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Cachoeira Paulista e atuou em diversas ONGs, dentre as quais a Julad – Juventude Latino-Americana pela Democracia. Foi secretário da Juventude, Esporte e Lazer do Governo do Estado de São Paulo, conselheiro do Fundo Social de Solidariedade, secretário de Estado da Educação de São Paulo e presidente do Consed – Conselho Nacional de Secretários de Estado da Educação do Brasil por dois mandatos. Promove concorridas conferências nas áreas de Educação e desenvolvimento organizacional e desenvolve ininterrupta atividade cultural na disseminação da ética e de uma filosofia atraente para a juventude brasileira.

Foi o vereador mais votado do Brasil em 2008, eleito para a Câmara Municipal de São Paulo com 102.048 votos

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