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Massaud Moisés – vivia a literatura brasileira e lusitana 24 horas por dia, sem se alienar da realidade

FonteCarta do Líbano

Um dos principais intelectuais brasileiros do século 20, autor de obras fundamentais para a pesquisa e o ensino das literaturas brasileira e portuguesa, era descendente de libaneses. A paixão pela literatura e vocação inata do escritor e professor Massaud Moisés para o ensino é celebrada pela família e por toda uma geração de alunos  formados durante seus 40 anos de docência na Universidade de São Paulo – sem falar nos inúmeros estudantes brasileiros que aprenderam através de seus livros didáticos adotados em escolas de todo o País. Nascido em 9 de abril de 1928, em São Paulo, Massaud Moisés foi o único de uma família de imigrantes libaneses com nove filhos a seguir carreira intelectual. Era filho de Felippe Moisés, libanês da aldeia de Deir-Jennine – norte do Líbano – e de Ana Cória Moisés. Massaud teve 8 irmãos: Alfredo, Helena, Zoraide – filhos do primeiro casamento de sua mãe -, Jorge, Júlia e Adélia. Outros dois irmãos morreram muito cedo: Holmes e Leonel. Desde muito pequeno, Massaud se revelou excelente aluno, o que acalentou no pai o desejo de vê-lo formado médico. Porém o jovem se apaixonou pela literatura e resolveu dar outro rumo à sua vida. Por  conta disso, sua relação com o pai chegou a ficar meses estremecida. O professor costumava dizer que se o pai soubesse os bons frutos que ele colheria ao longo de uma
trajetória vitoriosa, não teria se alterado e nem se preocupado tanto.

UM DURADOURO CASO DE AMOR

“Ele vivia a literatura 24 horas por dia, sem se alienar da realidade”, declarou Maria Antonieta Raimundo Moisés, esposa e companheira no amor pelas letras por mais de  cinquenta anos. Aliás, literalmente Antonieta se apaixonou pelo professor. “Fui aluna do Massaud de 1957 a 1959, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, da PUC-SP, uma escola feminina de nível altíssimo na época, quase similar ao da USP”, recorda. Ao se formar, em 1959, Antonieta foi convidada por Moisés para ser sua assistente. “Trabalhei com ele até 1963, quando ele saiu da faculdade Sedes Sapientiae para lecionar na USP em tempo integral. Assumi, então, as aulas de Letras na faculdade e fiz meu doutorado sob a orientação dele. Depois, nos casamos em 1968”, conta a esposa. Foi o segundo casamento do professor, que já era pai de Beatriz e Cláudia. Do casamento com Antonieta nasceram Ana Cândida, Maurício e Rodrigo – para os quais dedicou alguns de seus livros – e tiveram dois netos. Para Antonieta, a admiração pelo marido e professor – morto em 11 de abril de 2018, aos 90 anos – permanece: “Ele era um excelente didata. Suas aulas eram verdadeiros  espetáculos de conteúdo. Ele foi uma das pessoas com maior vocação para o ensino que eu encontrei e muitas pessoas ainda dizem isso. Massaud foi amado pelos alunos, da vocação que ele tinha como professor. Massaud foi amado pelos alunos e qualquer um deles, hoje, diria o que eu estou dizendo”, assume.

Entre esses ex-alunos está o professor titular de Literatura Portuguesa da Universidade Federal da Bahia, Francisco Lima: “Tive grandes professores na vida, disso não posso me queixar. Mas como Massaud, como me autorizou a chamá-lo, foi diferente”, escreveu em carta à Antonieta, por ocasião da morte do mestre. “Massaud foi daqueles professores, poucos, a quem chamo de ulisseanos, que não precisavam vir para estar entre nós. Massaud esteve (está, estará) em quase todas as salas de aula do Brasil, sem nunca ter estado em muitas delas – embora, generoso como era, tenha estado em muitas”, afirmou. “Ele pedia silêncio na turma e, então, de repente gritava: ‘Eu estou ouvindo vozes! Serão nozes ou avelãs?’”, contou outro ex-aluno, o escritor e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Eros Grau, em matéria publicada no jornal  Folha de S. Paulo”, repercutindo a morte de Moisés Massaud. Para o jornalista Adelto Gonçalves, do “Diário do Nordeste”, doutor em Letras da Língua Portuguesa, e  também ex-aluno: “Suas aulas eram também lições de Pedagogia, pois sabia como prender a atenção dos alunos, a ponto de não se ouvir na classe nenhum som, exceto a sua voz, que se tornava ainda mais canora quando recitava, por exemplo, os versos do poema ‘Hora Absurda’, de Fernando Pessoa (1888 – 1935): ‘O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas… / Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso… / E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas / Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso…’”.

O poeta português era uma de suas grandes paixões literárias. “Penso que devo ter lido algum texto sobre Pessoa e isso me chamou atenção e, então, eu fui atrás. Fui tentar descobrir quem era esse autor tão arrebatador”, disse ele em entrevista a Luís Fernando Prado Telles, da USP, em 2016. Uma das obras mais célebres do professor é sobre o autor do poema “Tabacaria”: “Fernando Pessoa: O Espelho e a Esfinge”. “MASSÔ” E “MASSAÚDE” Massaud Moisés era chamado de duas formas distintas. No Brasil, seus colegas falavam “massô”, com a pronúncia afrancesada. No exterior, era “massaúde”, como seria o correto na língua Portuguesa. E Massaud levou o vernáculo português para outros destinos. Como professor titular da Universidade de São Paulo, foi professor visitante das universidades norte-americanas de Wisconsin (1962-1963), Indiana (1967-1968), Texas (1971), Califórnia (1982), Vanderbilt (1970-1987) e também esteve em visita de estudos na Universidade de Santiago de Compostela Espanha (2001). Antes dos 30 anos, em 1954, assumiu a cátedra de Literatura Portuguesa na USP – depois de dois anos como professor assistente de António Soares Amora, um dos introdutores do assunto na instituição, nos anos 30 – onde lecionou por quatro décadas, até se aposentar.

Dirigiu as Faculdades de Filosofia, Ciência e Letras de Marília e Assis, institutos isolados do Ensino Superior do Estado de São Paulo, posteriormente incorporados à Unesp, uma das três universidades públicas do Estado. “Ele também lecionou no Mackenzie e na Cásper Líbero. Praticamente dava aulas em quase todas as faculdades que existiam na época”, conta a viúva Antonieta. Dirigiu o Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo e ministrou conferências em universidades brasileiras, norte-americanas e europeias. Em 16 de março de 2000 assumiu a cadeira de número 17 na Academia Paulista de Letras. No entanto, nunca se empenhou em conseguir uma vaga na Academia Brasileira de Letras que, por motivações políticas, já abriu suas portas para figuras bem menos representativas. Massaud Moisés analisou e reconstituiu a história das Literaturas Brasileira e Portuguesa em profundidade. Sua extensa obra é hoje referência tanto no meio acadêmico brasileiro como de além-mar. Chegou a coordenar a revista “Colóquio-Letras”, da Fundação Calouste-Gulbenkian, com sede em Lisboa, voltada ao estudo e à divulgação da atividade literária em língua Portuguesa. Por esses trabalhos, em 26 de novembro de 1987, recebeu do governo português o título de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Com obras como “A  Análise Literária” – um manual para a leitura crítica de uma obra de ficção – “A Criação Literária” e “História da Literatura Brasileira” – em cinco volumes – Moisés ajudou a formar gerações de alunos nos cursos de Letras. “Ele acreditava que a literatura era uma maneira de redimir o mundo, de ajudar a humanidade a ser melhor. Acreditava na função humanitária da literatura”, ressalta Antonieta Moisés. Porém, a obra de Massaud Moisés foi além da academia. Sua escrita didática também chegou aos bancos escolares com títulos como “Literatura Brasileira Através de Textos” e “Literatura Portuguesa Através de Textos”, adotados nos colégios brasileiros. Com o escritor José Paulo Paes, um dos seus grandes amigos, organizou o “Pequeno Dicionário da Literatura Portuguesa”. Em sua produção, com livros publicados pela editora Cultrix, percebe-se a preocupação pela formação dos mais jovens. Moisés também teve um papel importante no estudo e divulgação dos autores lusitanos no Brasil. Possuía uma vasta biblioteca que, com o passar do tempo, começou a ocupar muito espaço em sua casa, o que fez o professor adquirir o apartamento de 100 m2 – no andar acima do seu – e lá instalou os livros e o escritório, colocando uma escada helicoidal para ligá-los. Generoso, quando percebeu que o fim se aproximava, doou a biblioteca para a Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, em São Paulo, e agora seus livros estão disponíveis para o público.

A RAÍZES DO CEDRO

Oriundo de uma família libanesa, Moisés dizia-se agnóstico, mas embora não acreditasse na vida eterna, carregava uma alma cristã, como sabem os que com ele  conviveram, como destacou o jornalista Adelto Gonçalves, em texto sobre o professor. “Ele era muito humano, procurando sempre ajudar os alunos e a todos”, salienta Antonieta. O afeto de Massaud Moisés era onipresente. “Um homem que declamava Raimundo Correia e Fernando Pessoa para o neto ainda bebê, que amava comer pizza e tomar sorvete e que torcia para o Corinthians”, contou a filha Ana Cândida, em seu pronunciamento na Missa de 7º Dia do pai, na Igreja São José, em São Paulo. Depois de sofrer um AVC em 2013 e outro em 2015, o professor ficou com a saúde debilitada e evitava ver jogos do seu amado Corinthians. Ele dizia que seu coração não aguentaria. Divertido, de riso fácil, amante da literatura, do cinema e da música, Massaud Moisés tinha poucos e grandes amigos. O amor à família vinha antes de tudo e telefonava todos os dias para a única irmã que ainda tinha. Acreditava no amor como garantia de sucesso profissional e, um eterno apaixonado pela esposa, ensinou os filhos que o casamento não é só respeito, admiração e amizade, mas sim um encontro de almas. Antonieta reverencia e corresponde a esse amor: “Durante 50 anos de casados, poucas vezes ele se referia a mim pelo meu nome. Era sempre ‘minha flor’, ‘minha santa’, ‘minha alma’. Ele usava todos os adjetivos que podia para me nomear. E era muito singular nisso. dizia: ‘Preciso consultar minha cara metade’. Você pode imaginar o que foi a nossa vida em matéria de troca de afeto, de comunhão, de  harmonia”. “Meu pai me chamava de ‘Ana Freud’, à minha mãe se referia como ‘a luz da minha alma’, seu aluno preferido foi apelidado ‘meu príncipe’. Era um homem doce com as palavras, um apaixonado pela vida e orgulhoso de sua origem libanesa”, resumiu a filha Ana Cândida. Massaud Moisés morreu em decorrência de um AVC dois dias depois de completar 90 anos, em 2018.

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