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“No Líbano, como antes” por Renata Abalém para o Correio Braziliense

Por Renata Abalém — Advogada, diretora da Câmara de Comércio Brasil-Líbano

A palavra “aniversário” é de origem latina e significa aquilo que volta todos os anos. Comemorados por poucos e ricos, os aniversários e seus festejos ganharam o status de popular somente na Idade Média, quando o hábito de juntar pessoas ao redor do aniversariante afastava os espíritos maus. Assim é que, repetidas vezes, nos dias aprazados, rememoramos a vida ou a morte — sim, ela também — de quem nos importa. Pessoas fazem aniversários e situações também. No próximo 4 de agosto, uma comunidade mundial relembra uma data por demais devoradora. Falo da comunidade libanesa espalhada pelo mundo inteiro, seus filhos e netos e sua diáspora, falo sobre a boca de nitrato de amônio que engoliu o Porto de Beirute, ceifando mais de 200 vidas, deixando milhares de feridos físicos e mais outros milhares de feridos na alma.

O aniversário de dois anos da explosão de Beirute está às portas e ainda não se sabe quem são os responsáveis pela tragédia. Beirute, a “Paris do Oriente Médio”, a “Mãe das Leis”, aquela que resistiu a vários terremotos e cujo perímetro abriga civilizações há séculos, vê o segundo ano da sua tragédia chegar e ainda sangra. Enquanto o Líbano, país e nação, povo e esperança, conjuga o verbo colapsar em todos os sentidos, a explosão revolveu e mostrou para o mundo a dor de uma sociedade que no seu auge era um paraíso fiscal e cujos bancos pagavam os maiores juros do mundo. Hoje, não há energia elétrica para o próximo inverno. É o país das faltas. Falta tudo e já começam a faltar libaneses jovens cuja escolaridade permite que trabalhem em outros países.

Enquanto as lembranças são avivadas pelo aniversário da tempestade vermelha — a cidade, quase que totalmente destruída, foi coberta por uma fumaça avermelhada —, o Líbano vive a pior das crises: a da moralidade. O amônio escancarou a corrupção dos cedros para o mundo e não há multidão nas praças que possa arrancar raízes tão profundas. Recentemente as eleições parlamentares – a República do Líbano é a única democracia daquela região do Médio Oriente —, mostraram que o libanês quer mudanças, mas não grandes mudanças. Pouca coisa mudou, lembrando que o parlamento é dividido por religiões — sim, o Líbano é um país cujos poderes Legislativo e Executivo são baseados no confessionalismo, seu parlamento tem 128 lugares divididos igualmente entre muçulmanos e cristãos e estes escolherão, agora no segundo semestre, seu presidente para um mandato de seis anos, que, pelas regras, só poderá ser um cristão maronita. Escolhido o presidente, ele nomeia o primeiro-ministro que, invariavelmente, será um muçulmano sunita, e o chefe do parlamento, um muçulmano xiita.

Enquanto o Líbano tem vivido apagões elétricos, o dinheiro do povo deixa de existir, garfado por uma inflação inédita. Para ter uma ideia, no começo deste ano, o salário mínimo mensal equivalia a U$ 22,5, um dos mais baixos do mundo ou o equivalente a 40 litros de combustível.

Mas ainda assim é um país cobiçado: 10.452 km² de área, ou seja, metade de Sergipe. A ajuda internacional acontece, mas em uma mesa de trocas. E uma mesa interessante, já que o país dos meus avós não tem transporte público, não tem energia, não tem indústria, mas tem gás natural nas suas belas águas litorâneas. Gás esse pivô de grande incômodo com o vizinho Israel, que teima explorar tal recurso em área marítima ainda sob discussão de propriedade.

Peneirando tudo isso, nem pobreza nem riqueza interessam à diáspora libanesa no Brasil, a maior comunidade libanesa do mundo. Aqui somos o dobro dos libaneses do Líbano. O que nos interessa neste momento é o que pode interessar a milhares de brasileiros cujas origens são de países afetados por guerras ou outras catástrofes: exercer ajuda humanitária condizente com a realidade econômica tanto do doador quanto do recebedor. Falo isso porque é inviável fazer doações para qualquer país com uma carga tributária como a nossa. Para se ter ideia, o ato da doação, e somente ele, carrega para si uma tributação na ordem de 35%, no mínimo. Doar sai caro. Doar é impraticável.

Carecemos de uma legislação que nos propicie cuidar dos nossos libaneses, mandar remédios para nossos doentes, colocar comida nas mesas das aldeias, reconstruir nossa capital, recuperar a nossa dignidade. É isto que nos interessa: que o legislador brasileiro abra caminho para que o nosso dinheiro possa fazer o caminho de volta. Nossa força de trabalho veio ajudar o Brasil na sua construção e, agora, quer voltar, para reconstruir a nossa casa.

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