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Passeio à beira da realidade por Eduardo Bechara

Do livro que está sendo escrito intitulado Ausência de Poesia

Sinto-me apartado de tudo quanto possa ser fixo, concreto, estático. Deixei o convívio dos arcos de nossa arquitetura inexorável, das magias e místicas que são a um só tempo ciência e desconfiança, para tornar-me parte da viagem infinita de Ulisses, do segredo sutil que encerram os ideogramas chineses; para abraçar-me desesperadamente a essa eternidade cilíndrica, que nos deixam apenas entrever os telescópios e os planetários.

Quero compreender o mistério, o ímpeto, e rejubilo-me em êxtase apenas porque Paris raptou Helena; porque os deuses existem, e pobres criações, ignoram-se a si próprios; porque Stravinsky compôs Petrouchka; porque os mistérios são inexauríveis, infinitos e inexplicáveis; porque o jogo geométrico da dialética se insinua em cada objeto mínimo que nos rodeia com seu enigma indecifrável; porque percebo o verde, o amarelo, o azul; porque diferencio os sons; porque amo o cheiro das mulheres e da livrarias; porque algumas vezes cheguei perto do enigma que encerram todas as mulheres e todos os livros; porque há mil anos a terra era povoada por cavaleiros cobertos de ferro; porque os homens do futuro explorarão galáxias que a ciência me informa e, ao mesmo tempo, impotente, nega; porque o tempo nos permite olhar para nós mesmos da mesma forma que olhamos o outro; porque não acho que exista uma linha divisória entre o real e o irreal; porque o vinho tem um sabor delicado e antigo; porque Cristo foi crucificado e ressuscitou; porque Cristo talvez jamais tenha existido; porque todos os anos a primavera desabrocha cravos vermelhos que parecem querer devorar-me; porque me trancava às escondidas na biblioteca de minha casa e lá encontrava-me com heróis e criaturas mitológicas, históricas e imaginárias; porque ainda posso voar nos tapetes encantados da Pérsia, e sobre eles, discutir álgebra com doutores do Islã; porque é possível dar forma a tudo o que imaginamos, como imaginamos; porque existem palácios maravilhosos, não importa se lendários ou reais; porque é possível visitar a todos eles; porque em uma visita a Versalhes conversei por mais de uma hora com Luís XIV, em meio a turistas que entretidos com suas máquinas fotográficas, não percebiam a presença do rei; porque jamais tive uma noção perfeita do mundo que me cerca; porque me dispo da armadura e visto uma toga, tão logo uma coluna branca me cruze o caminho que vou trilhando como Roland ou Parsifal.”

1 Comentário
  1. Ficou sensacional!!!!
    Quando tiver mais por favor me inclua.
    Impressionante ver um texto tão cheio de emoções e ao mesmo tempo tão divertido.
    Adorei!!
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

    Responder

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