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Uberaba – ali se juntaram as famílias Frangieh, Miziara, selaram casamentos e construíram uma saga

Fonte – Carta do Líbano

Duas linhagens libanesas se encontraram e se uniram em Uberaba, no início do século passado, formando uma das grandes famílias responsáveis pelo progresso da  idade. A partir do relato de um membro desse clã poderoso e atuante, o médico Cristiano Miziara, pode-se traçar a história dos Frange – originários de Zgharta – e dos  Miziara – que adotaram o nome da cidade localizada ao norte do Líbano.

Com o orgulho de mostrar a trajetória dos primeiros imigrantes libaneses, no Brasil, no final da última década do século 19 , durante o “boom” da migração, podemos dizer, com todo respeito, que pertencemos a duas famílias tradicionais e importantes no Líbano e, também, que se tornaram importantes e tradicionais aqui, pelo que fizeram ao longo de suas vidas. Pelo lado materno, são os Frange (no Líbano, Frangieh) de Zgharta, extremamente políticos como veremos adiante. Aportando no Rio de Janeiro  vieram para Uberaba onde se radicaram, formando uma grande e respeitada família. Entre seus membros, destacamos entre outros, dois expoentes que participaram  ativamente, influenciando, para o bem, a história da cidade em que viviam. O primeiro, dr. Jorge Frange, ainda lembrado como um dos maiores médicos de Uberaba e, também, grande líder político que tinha o dom de equilibrar os debates com seu senso apaziguador. Seguindo a tradição familiar que veio do Líbano, de se envolver políticamente na sociedade, como seus parentes que lá ficaram e se tornaram presidente, como Sleiman Frangieh (1970-1976), deputado, como Tony Frangieh e muitos outros, foi candidato a prefeito de Uberaba, perdendo por uma pequena margem de votos, mas nunca se abateu e continuou a sua luta política e médica para o bem de seus conterrâneos até o fim da vida, ocupando outros cargos em Asilos, Santa Casa de Misericórdia, Sociedade de Medicina e Cirurgia de Uberaba, diretor do Jockey Club de Uberaba, sócio fundador da Rádio Sociedade Triângulo Mineiro, a quarta a ser fundada no país, dos Laticínios Triângulo Ltda e do Hospital Santa Rita hoje Hospital São José em 1932 e inspetor do Ensino Secundário (alto cargo no funcionalismo federal) . Teve um filho, também médico, com nome extremamente respeitado e admirado
durante toda a sua vida: dr. Frederico Alonso Frange. Isso posso atestar pois convivi social e profissionalmente com ele por muitos anos. Ele, também político, foi vice-prefeito em Uberaba na década de 1980. Como mais um exemplo de político na família temos, um primo, sobrinho de dr. Jorge, chamado dr. Paulo Jesus Frange, médico,
que é, pela quinta vez consecutiva, vereador na cidade de São Paulo. Imaginem, saiu de Uberaba e venceu, políticamente, na maior cidade do Brasil.

Em Zgharta, por todos os lados que olhamos, vemos letreiros comerciais com o nome Frangieh, onde podemos notar que, ainda hoje, a família tem grande influência, também, no comércio. O segundo, Felicio Frange, meu avô e irmão de dr. Jorge, é ainda lembrado, 50 anos após a sua morte, como um dos maiores beneméritos da história de Uberaba. Foi um gigante, literalmente, no ramo em que atuava pelo tamanho e volume de negócios e na bondade com que distribuía seus lucros. Foi o maior marchante de gado de Uberaba e região e nas décadas de 1940 a 1960 foi o único, repito, o único que abasteceu toda a população da cidade com carne de gado e de porco e, por tudo isso, era o maior contribuinte dos cofres públicos, conforme matéria publicado no jornal “Lavoura e Comércio” no dia 6 de julho de 1940. Os comerciantes de carne do mercado tinham livre acesso ao Matadouro Municipal, mas preferiam receber a carne das mãos do sr. Felicio, que era, comprovadamente, um negociante honesto e benquisto, oferecendo produtos de qualidade a preços acessíveis. Felício Frange foi, também, um homem memorável, um cidadão exemplar. Ele abatia
o gado, às segundas, quartas e sextas feiras e, logo após, partia em direção aos açougues para a distribuição da carne, mas antes passava por asilos, creches, instituto de cegos, etc… onde deixava a quantidade necessária de cada um. Esse compromisso, ou melhor, essa obrigação a que ele se propôs não tinha nenhum contrato firmado
entre as partes, como também não tinha nenhum pedido por parte das entidades. Fazia isso porque achava que devia fazê-lo. Após todo esse ritual retornava para casa, tomava um banho e almoçava por volta de 10h30, 11h00 da manhã, almoço esse que era feito em grande quantidade pois ele criou o hábito, entre as pessoas pobres do bairro de, diariamente, irem lá pedir um prato de comida que jamais foi recusado. A maioria levava uma pequena sacola onde ele, pessoalmente, através da janela, colocava um pedaço de carne para a família do mendigo. Essa passagem que eu vivenciei, quando criança, nunca me saiu da memória. Em 1948 ele e sua filha Esmeralda, que sempre esteve à frente das iniciativas sociais, fizeram parte dos fundadores da Sociedade de Assistência aos Lázaros. E tenho certeza que toda a Uberaba chorou com sua morte. Morte de uma das maiores beneméritos dessa cidade, um homem que tinha uma estatura moral como poucos que já vi. Temos que fazer justiça, não  esquecendo de falar de sua esposa e companheira de toda a sua vida: Rosa, uma libanesa que chegou ao Rio de Janeiro em 1913, em Uberaba em 1916 e lhe deu seis filhos, Esmeralda, José, Neif, Olga, Dalva, minha mãe e Maria. Tinha grande devoção a ele e seus descendentes. Em tudo o ajudou e sempre o apoiou em suas obras. Ela nunca perdeu o sotaque da língua pátria e sempre nos dizia: tem duas palavras que não consigo falar: “bassora” (vassoura) e “manjoca” (mandioca). Nas palavras de sua neta Olga Maria Frange, hoje uma grande pianista , maestrina e escritora que está escrevendo um livro sobre “Os Pioneiros da Música em Uberaba”, de 1815 até o final do século 20, “Ele tinha um temperamento solar, brilhante, barulhento e invasivo e ela, Rosa, era lunar e se colocava sob uma luz diáfana e noturna em relação ao astro-rei.
Assim eles se completavam”.

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